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As diferentes perspectivas da sustentabilidade

Foi a partir da década de 1970 que o termo sustentabilidade começou a se disseminar mais amplamente por conta das discussões sobre o modelo de desenvolvimento econômico face à utilização dos recursos naturais do planeta. Na década seguinte a Organização das Nações Unidas (ONU) criou uma comissão para estudar os problemas ambientais e pensar em um novo modelo de desenvolvimento. Em 1987, esse grupo de estudos entregou o relatório intitulado “Nosso futuro comum”, também conhecido como Relatório Burtland. O relatório consolidou o termo “desenvolvimento sustentável”, um tipo de desenvolvimento capaz de suprir as necessidades dos seres humanos da atualidade, sem comprometer a capacidade do planeta para atender as futuras gerações, sem, portanto, esgotar os recursos naturais.

No entanto, esse é apenas um dos significados de sustentabilidade.  A palavra comporta diversos significados, é um termo polissêmico, que depende do seu uso e do contexto em que se insere. As diversas perspectivas da sustentabilidade foram o tema da palestra do Prof. Dr. Roberto Donato da Silva Júnior, docente da FCA (Limeira) e do Nepam, na Unicamp, para os alunos que estão frequentando o curso sobre desenvolvimento sustentável. A disciplina (F014) está sendo oferecida pelo Instituto de Física “Gleb Wataghin”, em parceria com o Nepam, e é coordenada pelo Prof. Dr. Marco Aurelio Pinheiro Lima.

Roberto Donato analisou os arranjos conceituais sobre sustentabilidade em quatro áreas do conhecimento: Ecologia, Economia, Sociologia e Antropologia. E mesmo dentro dessas áreas, o significado de sustentabilidade não é fixo, variando com o tempo. Segundo Donato, na Ecologia, na década de 1990, a sustentabilidade se referia à manutenção da integridade ecológica. “Isso pressupõe uma cisão entre homem e natureza, sendo a ação humana essencialmente prejudicial, o que exigiria uma política de conservação rígida, em nível global para manter os ecossistemas intactos”, explicou. Posteriormente os especialistas dessa área modificam esse discurso porque passam a considerar que as alterações no ambiente feitas pelo homem são muito profundas, tornando impossível uma cisão entre a dimensão humana e a dimensão natural. “Daí que sustentável passa a ser a manutenção das funções básicas de um ecossistema de modo que o sistema não entre em colapso”, disse.

A importância de compreender os diferentes arranjos sobre sustentabilidade reside no fato de que cada um deles estabelece um tipo de proposta política para lidar com o desafio colocado pelas questões ambientais. De acordo com Donato, há dois sentidos que derivam desses arranjos: o da ecologização, que se traduz na incorporação das atividades humanas nos esquemas explicativos das relações ecológicas, e o da politização, que incorpora o entendimento dos elementos ecológicos como dotados de “agência” para além dos fenômenos reconhecidos como “naturais”. “Isso traz uma compreensão de que a interação do homem com a natureza aumenta o nível de incertezas sobre os fenômenos”, afirmou o professor.

Ter tantas visões sobre um mesmo tema dificulta a compreensão sobre o que significa ser sustentável? Para Donato, é positivo ter vários atores discutindo e se posicionando sobre o mesmo tema. “Esse tipo de disputa pode oferecer caminhos mais interessantes do que ter uma visão única. Temos que ficar atentos e abandonar visões messiânicas de sustentabilidade. O desenvolvimento sustentável, por exemplo, é uma das visões possíveis de sustentabilidade. Não temos uma proposta que englobe os quatro campos que eu citei. Eu acredito que ao invés de buscar “a” sustentabilidade, seria melhor privilegiar o processo multicêntrico e polifônico derivados das sustentabilidades”, finalizou.

A próxima palestra do curso sobre sustentabilidade será com o professor Luiz Marques, no dia 20 de agosto. O terá será o livro “Capitalismo de colapso ambiental” (Editora da Unicamp, 2018).

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