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HIDS: um parque tecnológico para o século XXI

Em 2013, a UNICAMP adquiriu a Fazenda Argentina, uma área de 1,4 milhão de metros quadrados no Polo II do CIATEC, correspondendo a um aumento de aproximadamente 60% na área de seu campus de Barão Geraldo. Com a proposta de lá se implantar um Hub Internacional de Desenvolvimento Sustentável (HIDS), surgiu a necessidade de se desenvolver um projeto urbano para a área. Contudo, a ideia logo evoluiu para um projeto envolvendo não apenas a Fazenda, mas todo o atual Polo II do CIATEC, além do campus Zeferino Vaz da Unicamp e do campus II da PUC-Campinas. O projeto físico-espacial do HIDS está sendo desenvolvido a partir de um amplo estudo do planejamento urbano de hubs de inovação, e terá como desafio propor diretrizes de uso e ocupação para as áreas atualmente não utilizadas ou com uso agrícola, bem como desenvolver propostas para o melhoramento das áreas já ocupadas. Este artigo é o primeiro de uma série de quatro textos sobre essas análises.

Os primeiros polos ou parques tecnológicos surgiram ao redor de Stanford e na região de Boston, ao longo da rodovia 128, nos anos 1950, nos Estados Unidos. Esses polos eram afastados da cidade e voltados apenas para espaços de trabalho. Nos anos 1970 surge o conceito de technopôle, ainda suburbano, tendo como objetivo a fertilização cruzada entre universidades e empresas, mas com maior atenção à arquitetura e espaço urbano de qualidade. Um exemplo dessa segunda geração de parques é o Parc international d’activités de Valbonne Sophia-Antipolis, criado em 1974, na França. Os parques científicos/tecnológicos de 3ª geração (3GSP) surgem nas primeiras décadas do século XXI e têm como principais características o foco nas pessoas e na construção de um sentido de comunidade, a dispersão geográfica (podem incluir, por exemplo, um coworking no centro da cidade e as atividades principais em um campus universitário) e a serendipidade, que consiste em criar oportunidades de encontros fortuitos que podem promover novas interações e fertilizações cruzadas.

Os espaços urbanos voltados à inovação vêm sendo chamados por alguns autores de ‘‘knowledge-based urban developments’’ (KBUD), ou espaços urbanos voltados ao conhecimento. Eles em geral incluem espaços de ensino e pesquisa e empresas de alta tecnologia, e configuram uma centralidade. Têm como características o uso misto, o branding, o learning and playing e (5) a conectividade. O learning and playing consiste em ambientes interativos e laboratórios vivos, capazes de prover uma “experiência de lugar” como valor, como acontece em cidades com Copenhague, capital da Dinamarca ou Zaragoza, na Espanha. Já a conectividade inclui a rede de lugares de interações sociais, a orientação dos pedestres, o contato presencial e a identidade do lugar. Esse conceito é ilustrado pelo parque empresarial One-North, em Cingapura e o distrito universitário, Kelvin Grove Urban Village, em Brisbane, Austrália.

Os chamados knowledge locations têm se transformado por meio da inclusão de novas funções como habitação, espaços de lazer, cultura e educação. Os novos projetos buscam criar áreas urbanas diversificadas, de modo a atrair pessoas talentosas e criativas e promover encontros entre elas. Alguns exemplos são o Distrito 22@, em Barcelona, e o bairro Arabiaranta, em Helsinque, Finlândia. Essa “virada urbana” é resultado de um crescente interesse de pessoas jovens altamente qualificadas que preferem trabalhar em ambientes urbanos densos, animados e culturalmente ricos, que oferecem mais do que espaços de trabalho e pesquisa, incluindo opções de lazer e consumo, em um mundo em que trabalho e vida pessoal se tornaram quase que indissociáveis.

No Brasil, a maioria dos casos se assemelha mais ao modelo inglês de parque tecnológico. Embora se reconheça a importância da criação desses parques, por meio de políticas públicas de implantação destes em diversos estados, o modelo adotado inclui apenas espaços de trabalho e laboratórios, tendo como principal valor a proximidade a universidades e empresas, mas sem criar o mesmo tipo de ambiente urbano criativo e vivaz que atrai jovens talentos em polos tecnológicos ou tecnópoles de diversas cidades do mundo. Ao contrário do que se nota nos parques tecnológicos de 3ª geração na América do Norte, Europa, Austrália e até mesmo na China, os parques tecnológicos do país são tipicamente implantados em locais afastados dos centros urbanos e em áreas de uso não misto. Ainda que alguns desses parques disponibilizem infraestrutura e serviços tais como como ciclovias e pontos de ônibus com carregadores de celular energizados por painéis fotovoltaicos, eles estão muito longe de serem considerados sustentáveis no sentido amplo da palavra, e não são socialmente inclusivos.

No caso de São Paulo, os parques tecnológicos são definidos como empreendimentos para a promoção de ciência, tecnologia e inovação que oferecem oportunidade para as empresas do Estado transformarem pesquisa em produto, aproximando os centros de conhecimento (universidades, centros de pesquisas e escolas) do setor produtivo (empresas em geral). Esses ambientes propícios para o desenvolvimento de Empresas de Base Tecnológica (EBTs) e para a difusão da Ciência, Tecnologia e Inovação (C,T&I), estimulam a sinergia de experiências entre as empresas, tornando-as mais competitivas. Foi essa iniciativa que resultou na implantação de parques tecnológicos nas cidades de São José dos Campos, Sorocaba, Ribeirão Preto, Santos, Piracicaba, São Carlos, Campinas etc.

No entanto, estes parques tecnológicos não estão totalmente integrados à área urbana e à vida das cidades das quais fazem parte. Como resultado, eles sofrem com a falta de diferentes dinâmicas urbanas que poderiam contribuir de forma significativa para a criação de espaços inovadores. Isso faz com que se perca a oportunidade de utilizar esses parques como laboratórios vivos para o desenvolvimento de competências ligadas ao tema de cidades inteligentes.

Em países mais desenvolvidos, os antigos parques tecnológicos estão dando lugar a clusters ou campi de inovação, como resultado da associação entre universidades, centros de pesquisas, empresas, poder público e iniciativa privada. Essas áreas assemelham-se cada vez mais a áreas urbanas, contendo não apenas escritórios, mas também comércio, habitação, indústrias não poluentes e espaços livres para a convivência social. Estes espaços e outros ambientes de inovação são cada vez mais vistos como partes integrantes das cidades e não como entidades independentes. Atualmente, o empreendedorismo e o dinamismo que guiam os ambientes de inovação extrapolam as fronteiras dos parques tecnológicos, do mesmo modo que os limites entre a ciência, tecnologia e atividades econômicas, ou entre as áreas de habitação, lazer e trabalho também estão se tornando cada vez mais fluidos.

Nota-se, portanto, que os parques de ciência e inovação brasileiros seguem um modelo urbanístico que não potencializa a interação adequada, resultando em espaços artificiais que poderiam se aproveitar mais da vida urbana, assim como as cidades poderiam se aproveitar mais dos projetos desenvolvidos nestes centros. Seria possível implementar polos tecnológicos de 3a geração no Brasil e, mais especificamente, em Campinas? Vamos tentar responder a essa questão nos próximos artigos.

Por Profa. Dra. Maria Gabriela Caffarena Celani (FEC Unicamp), Prof. Dr. Carlos Eduardo Verzola Vaz (UFSC) e Prof. Dr. Sidney Piochi Bernardini (FEC Unicamp)

Foto: Antonio Scarpinetti

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